Reflexão Final Individual


Reflexão Individual: Carolina

A presente Unidade Curricular possibilitou o desenvolvimento de competências nos desportos coletivos, em particular no futebol, com base em investigação científica relevante. Deste modo, abriu portas à introspeção acerca dos fundamentalismos que se desenvolvem ao longo da vida, fruto de uma aprendizagem baseada no senso comum.

Apesar da importância da prática no desempenho da atividade profissional do treinador, o conhecimento tornar-se-á mais robusto e credível se for sustentado por evidências teóricas oriundas da ciência.

Assim sendo, o Seminário permitiu compreender o “porquê” de certas formas de atuação que se propagaram ao longo de várias décadas e que os treinadores aplicam por imitação, sem entenderem o referencial teórico subjacente a esses comportamentos.

Um exemplo paradigmático é a conceção dos microciclos semanais, onde sempre se seguiu a mnemónica “primeiro força, depois resistência e, por último, velocidade”, sem se compreender a sua fundamentação. Durante as aulas, percebi que essa ordem tem uma lógica, pois o jogo funciona como o epicentro, a partir do qual se constrói todo o planeamento. Assim, os conteúdos de treino estão alinhados com as capacidades condicionais solicitadas em cada dia da semana, respeitando o binómio recuperação/aquisição e procurando otimizar o desempenho desportivo no dia D, sem provocar fadiga excessiva nos dias que antecedem ou sucedem o jogo.

No fundo, não existe apenas uma forma correta de alcançar o sucesso. Todas as opções são válidas, desde que coerentes com os princípios científicos e adaptadas, através da tentativa e erro, aos contextos específicos em que se atua.

Paralelamente, a inclusão de três convidados ao longo do semestre contribuiu para o enriquecimento em diferentes áreas e modalidades, permitindo também o contacto com experiências e percursos profissionais inspiradores. Diogo Coutinho (futebol), Joel Rocha (futsal) e Francisco Tavares (futebol) partilharam o seu conhecimento nas respetivas funções de treinador-adjunto, treinador principal e coordenador de departamento de performance. As suas intervenções reforçaram a ideia de que é possível atingir grandes patamares, aliando o conhecimento académico à experiência prática no terreno.

A redação deste blogue, enquanto instrumento de avaliação, constituiu um complemento semanal aos conteúdos abordados em aula. Por conseguinte, desafiou-nos a aprofundar determinadas temáticas, de acordo com as preferências pessoais, convidando-nos a aprimorar o trabalho com ferramentas de pesquisa, a leitura de artigos científicos e a seleção criteriosa de informação, com vista à apresentação de publicações com a máxima qualidade e relevância. O principal objetivo consistiu em transmitir parte do conhecimento que íamos adquirindo a outros leitores que, apesar de interessados na área, possam não ter tido a mesma oportunidade de acesso à formação académica.

Cada publicação teve a sua própria história. O início centrou-se em aspetos mais globais, como o papel do treinador nos desportos coletivos e o desenvolvimento dos fatores do jogo no futebol. Procurámos salientar a importância de o treinador ser uma figura multifacetada, que assume, muitas vezes, não só o papel de treinador, mas também o de educador. Defendemos, por isso, uma abordagem holística do processo de treino, onde o todo é significativamente maior do que a simples soma das partes.

Nesse seguimento, refletimos sobre os comportamentos mais adequados a adotar no pré-treino, com o objetivo de rentabilizar ao máximo cada sessão. Para isso, é essencial analisar diversos fatores contextuais e, com base neles, escolher a melhor estratégia de planeamento e intervenção, ajustada às necessidades específicas da equipa. Por conseguinte, destacámos também a importância do diagnóstico do estado e das características dos atletas, como condição fundamental para uma intervenção mais informada, individualizada e eficaz.

A partir destas bases, explorámos temas progressivamente mais específicos, como a abordagem integrada para a formação de jogadores no escalão de iniciados e o impacto da maturação biológica no desempenho desportivo, com especial enfoque no futebol de formação. Abordámos ainda a estruturação de um microciclo, com as suas três fases – recuperação, aquisição e tapering –, assim como a variação da carga externa por posição, com o objetivo de adaptar o treino de forma individualizada e específica.

Na reta final, debruçámo-nos sobre a importância da instrução e das diferentes abordagens pedagógicas, procurando compreender como otimizar a intervenção do treinador em contexto de treino, nomeadamente através da capacidade de levar os jogadores a aderirem às suas ideias.

A análise técnico-tática representou um desafio extra neste portfólio digital, sendo que optámos por incidir sobre um treinador irreverente e carismático, admirado por ambos os autores: Marcelo Bielsa e o seu apaixonante Leeds, que cativou qualquer amante de futebol aquando do seu regresso à Premier League. Esta tarefa foi, simultaneamente, a mais desafiante e a mais empolgante, pois permitiu-nos observar com atenção – e não com o olhar de simples adeptos – os processos de jogo da equipa. Acima de tudo, levou-nos a valorizar a coragem de ser fiel a uma ideia, mesmo quando o contexto convida à mudança.

Por último, por se tratar de um espaço partilhado, o blogue revelou-se um meio de diálogo e interação com o meu colega Humberto Bettencourt. Para além da sabedoria e experiência que transmite de forma genuína e honesta, é de ressalvar a humildade com que abraçou esta missão de contribuir para o seu país. E, mesmo com todo o percurso que já tem, continua a mostrar uma enorme curiosidade e vontade de aprender, como se estivesse a começar agora – sempre com o objetivo de melhorar, ajudar os outros e dar o melhor de si em tudo o que faz. Trabalhar com alguém tão empenhado foi, sem dúvida, um privilégio, e acredito que o nosso trabalho se complementou de forma muito positiva.

“Procura sempre estar rodeada de pessoas mais experientes ou sábias do que tu, pois é assim que se cresce e evolui”.

 

Aluna de Mestrado em Treino Desportivo,

Carolina Rei.


Reflexão Individual: Humberto

O desafio de escrever e publicar semanalmente num blogue, sobre temas extraídos das aulas, em conjunto com a colega Carolina Rei, constituiu uma experiência profundamente enriquecedora, tanto do ponto de vista académico como pessoal e profissional, pois ao longo das várias aulas e através das publicações desenvolvidas, pude não só aprofundar os meus conhecimentos sobre o treino em futebol, como também fortalecer competências essenciais, como a análise crítica, a estruturação do pensamento e a articulação entre teoria e prática, alicerçadas na evidência científica, partilha de experiência dos professores e colegas.

O primeiro desafio foi escolher o nome do blogue, um momento que nos fez refletir bastante e que, em simultâneo, marcou o início do nosso trabalho em equipa. Depois de o tornar operacional, avançámos para o primeiro artigo, intitulado “O Papel do Treinador nos Desportos Coletivos”. Esta publicação teve um impacto significativo na forma como percebo a função do treinador, pois, apesar da minha experiência prática de mais de uma década, refletir sobre esta temática com base científica valorizou ainda mais aspetos como liderança, gestão emocional, comunicação, cultura de equipa e formação integral do atleta. Fiquei ainda mais convicto de que o treinador não é apenas um técnico, mas também um educador, facilitador e modelo, com um papel decisivo na motivação, coesão e desenvolvimento humano dos jogadores.

Continuando a desenvolver um pensamento mais crítico e fundamentado, uma das aprendizagens mais marcantes surgiu ao investigar a importância do diagnóstico inicial no processo de treino, o que me permitiu perceber que diagnosticar não é apenas um ato técnico, mas sim uma ação estratégica que orienta todo o planeamento, sendo que a abordagem multidimensional – física, técnica, tática, psicológica, fisiológica e contextual, evidenciou a necessidade de conhecer o jogador como um todo, articulando o conteúdo ao contexto.

Na sequência, a publicação sobre o desenvolvimento dos jogadores sub-15 levou-me a refletir sobre a maturação biológica e os contextos formativos. Elaborar uma grelha de exercícios especificamente dirigida a esta faixa etária exigiu coerência e intencionalidade, permitindo-nos aplicar na prática os conhecimentos adquiridos e construir propostas adequadas às necessidades reais dos jovens atletas.

Ainda no âmbito da adaptação do treino às necessidades dos jogadores, aprofundei a minha compreensão sobre a periodização do microciclo, a organização racional da carga, a alternância de estímulos e os tempos de recuperação. Esta publicação destacou-se pelo rigor na pesquisa e pela qualidade do trabalho colaborativo, beneficiando do contributo metódico e crítico da colega Carolina.

Seguindo essa linha, a análise dos fatores do jogo, com destaque para a integração entre tática, técnica e psicologia, levou-me a repensar a prática de treino, reforçando a ideia de que nenhum conteúdo deve ser treinado de forma isolada. Esta visão holística permitiu-me melhorar o planeamento de exercícios e optar por metodologias que valorizam a contextualização.

Esta abordagem preparou-me para uma análise mais concreta, como a realizada ao Leeds United, que foi particularmente inspiradora, dado que estudar o trabalho de Marcelo Bielsa e observar como princípios táticos se transformam em comportamentos reais de jogo permitiu-me compreender como a identidade de uma equipa se constrói com base em ideias claras, coerentes e consistentes.

Da mesma forma, a análise sobre a variação da carga externa por posição foi também altamente relevante, pois reforçou a importância de individualizar o treino com base nas exigências do jogo e no perfil dos jogadores. Esta abordagem orientada por dados objetivos constitui, hoje, uma das minhas maiores prioridades enquanto treinador.

No mesmo sentido reflexivo, na penúltima publicação, dedicámo-nos ao impacto da maturação biológica no rendimento desportivo, com o artigo “Maturação Precoce e Tardia: Qual o Impacto da Maturação Biológica no Desempenho Desportivo no Futebol?”. Este trabalho permitiu-me integrar e consolidar saberes, especialmente ao discutir o bio-banding, os critérios de seleção e os riscos da exclusão precoce de talentos tardios, destacando a importância de estratégias formativas mais justas, inclusivas e sustentadas a longo prazo.

Dando continuidade a este processo, encerrámos o ciclo de publicações com o tema “Diferenças entre os Modelos de Instrução no Processo de Ensino-Aprendizagem”. Esta reflexão permitiu-me compreender que a eficácia da instrução não se limita à transmissão de informação, mas exige a mobilização da dimensão emocional e o envolvimento ativo dos atletas. A distinção entre modelos passivos e ativos, com destaque para abordagens como o Teaching Games for Understanding, sublinhou a relevância de métodos que favoreçam a tomada de decisão, a autonomia e o pensamento crítico dos jogadores. Compreendi que o treinador deve assumir o papel de facilitador, promovendo contextos ricos em informação e ajustados à realidade do jogo.

Para além destas aprendizagens teóricas, a unidade curricular contou com cinco professores que contribuíram significativamente para o meu desenvolvimento: o Professor António Vicente, o Professor João Nuno e os convidados Diogo Coutinho, Joel Rocha e Francisco Tavares, cada um trazendo contributos distintos e enriquecedores, enquanto a diversidade de experiências e os debates entre professores e colegas fomentaram um ambiente dinâmico de construção coletiva de conhecimento e reflexão.

Assim, esta experiência representou uma oportunidade ímpar de crescimento pessoal e profissional, embora as reflexões tenham sido individuais, a colaboração com a colega Carolina Rei pautou-se por um espírito de partilha, responsabilidade e complementaridade, o que nos permitiu produzir conteúdos rigorosos, cientificamente fundamentados e com clara aplicabilidade prática.

Saio deste processo com um pensamento mais estruturado, uma visão crítica e uma consciência reforçada da responsabilidade do treinador na criação de contextos de treino significativos, confirmando a certeza de que treinar é um ciclo contínuo de reflexão, orientado pelas perguntas "porquê?", "onde?", "como?", "quando?", "com quem?" e "para quem?", sendo este questionamento a chave para uma prática mais intencional, humana e transformadora.


Humberto Bettencourt,

Mestrando em Treino Desportivo.


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