Diferenças entre os modelos de instrução no processo de ensino-aprendizagem
A instrução constitui-se como uma componente essencial no
processo de treino, na medida em que o exercício, por si só, não assegura a
concretização dos objetivos delineados. Neste sentido, a eficácia da instrução
está estreitamente relacionada com a qualidade da informação transmitida,
devendo articular-se com o planeamento e a organização do processo de
ensino-aprendizagem. Este domínio pedagógico deve exercer um efeito persuasivo,
promovendo o
envolvimento ativo do atleta nas tarefas propostas e mobilizando, para tal, a
sua dimensão emocional. A capacidade de instruir de forma eficaz constitui,
assim, uma competência que pode – e deve – ser desenvolvida e aperfeiçoada ao
longo do tempo.
Neste contexto, distinguem-se dois
modelos fundamentais de instrução: o modelo passivo e o modelo ativo. De acordo
com Morgan et al. (2005), no modelo
passivo, é o treinador quem assume a totalidade das decisões relativas ao
planeamento, condução e avaliação do processo de ensino-aprendizagem,
conferindo ao atleta um papel de mero executante. Por sua vez, o modelo ativo
centra-se no atleta, atribuindo-lhe um papel protagonista, no qual este assume
a responsabilidade pela construção do seu próprio conhecimento, participando de
forma autónoma e reflexiva nas diferentes etapas do processo formativo.
Considerando a elevada complexidade
e natureza dinâmica do jogo, os modelos tradicionais de ensino, centrados na
repetição de gestos técnicos descontextualizados, revelam-se frequentemente
insuficientes face às exigências das situações reais de competição (Castro & Morgan, 2025). Neste
enquadramento, Bunker e Thorpe (1982) propuseram o modelo “Teaching Games for Understanding”
(TGfU), o qual se apresenta como uma alternativa aos modelos instrucionais de
cariz mais passivo. Este modelo privilegia a aprendizagem através da
compreensão do jogo, promovendo o desenvolvimento das competências decisórias
dos praticantes a partir de situações representativas do jogo, em detrimento do
ensino de técnicas isoladas. Desta forma, procura-se atribuir aos jogadores um
papel ativo no processo de aprendizagem, permitindo-lhes compreender não apenas
o “como” — ou seja, a execução da ação —, mas também o “porquê” que
a fundamenta, ou seja, a lógica subjacente à ação (Castro & Morgan, 2025). Este processo de descoberta guiada,
apoiado em estratégias de questionamento, visa estimular o pensamento crítico,
promover a tomada de decisão e fomentar uma compreensão mais profunda e
consciente do jogo (Silva et al., 2021).
Nesta
lógica, a pedagogia do treino deve abandonar a lógica transmissiva, na qual o
treinador apenas prescreve, e passar a integrar os atletas como agentes ativos
do seu próprio processo de desenvolvimento (Gilbert & Trudel, 2001). O papel do treinador,
nesse sentido, torna-se o de um facilitador, capaz de criar contextos ricos em
informação, adaptados às necessidades e capacidades dos jogadores.
A aplicação de métodos ativos tem
evidenciado melhorias significativas ao nível técnico, tático, físico e
psicológico dos praticantes. Sierra-Ríos et al.
(2020) indicam que esta abordagem proporciona um maior tempo acumulado
em intensidades de esforço moderadas a vigorosas, aumenta o tempo efetivo de
contacto com a bola, reduz os níveis de desmotivação e potencia tanto a
qualidade da tomada de decisão como a eficácia da execução.
Adicionalmente, em consonância com Barquero-Ruiz et al. (2020), a abordagem
pedagógica adotada pelo treinador no processo de ensino-aprendizagem exerce uma
influência significativa nas motivações que conduzem ao abandono no futebol de
formação. Assim, um enfoque excessivo na execução técnica, o baixo sentimento
de sucesso e a limitada autonomia experienciada pelos jogadores durante as
sessões de treino são frequentemente apontados pelos jovens como razões para
desistirem da prática desportiva. Estes fatores resultam, em grande parte, da
preferência por metodologias centradas no treinador, nas quais os atletas
passam longos períodos parados, limitando-se a ouvir feedback e instruções, sem
que lhes sejam colocadas questões que estimulem a reflexão, dedicando-se
maioritariamente a exercícios isolados em detrimento de formas de jogo.
De igual
modo, a abordagem ecológica e a pedagogia não linear (Chow et al., 2015; Davids et al.,
2013) têm
vindo a ganhar protagonismo no treino desportivo, defendendo que os
comportamentos dos jogadores emergem da interação dinâmica entre o indivíduo, a
tarefa e o ambiente. Neste contexto, os constrangimentos do treino são
manipulados para guiar a aprendizagem, proporcionando estímulos que representem
as exigências do jogo real.
Neste
quadro, o uso de jogos reduzidos, tarefas com sobrecarga cognitiva e feedback
interrogativo são estratégias que devem ser privilegiadas, dado que promovem a
adaptação, a criatividade e a autorregulação dos praticantes (Passos et al., 2008).
Apesar dos benefícios comprovados
associados a esta abordagem instrucional, importa salientar que não existem
modelos intrinsecamente superiores ou inferiores, mas sim modelos mais
adequados a determinados contextos e objetivos específicos de
ensino-aprendizagem. Deste modo, os modelos tradicionais, centrados na
instrução direta, podem revelar-se eficazes na correção de aspetos técnicos
individuais, contribuindo para a consolidação de automatismos. Em
contrapartida, os modelos de cariz mais ativo mostram-se particularmente indicados
para o desenvolvimento de comportamentos coletivos, que implicam tomada de
decisão, criatividade e adaptação a contextos variáveis do jogo.
Referências
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