Periodização do microciclo no futebol: Período competitivo
A organização do
microciclo semanal constitui um dos pilares fundamentais da periodização no
futebol moderno. O jogo assume-se como o elemento central da programação, exigindo
uma abordagem criteriosa que contemple a avaliação contínua do rendimento dos
atletas – desde a análise dos dados e comportamentos do jogo anterior até à
projeção das exigências do próximo. Neste sentido, torna-se essencial periodizar,
operacionalizar, monitorizar e diagnosticar, com enfoque nos principais fatores
de desempenho, orientando assim as decisões metodológicas de treino e, sempre
que necessário, adaptar e ajustar.
Deste modo, a periodização
do microciclo deve assegurar uma manipulação racional das cargas de treino,
respeitando a relação entre estímulo e recuperação, ao mesmo tempo que integra
de forma coerente as componentes físicas, técnico-táticas e psicológicas. Esta
abordagem está em consonância com os princípios recentemente propostos por
Neste sentido,
Assim sendo, o estudo de
Complementarmente,
Estas conclusões reforçam
e validam a organização funcional e a alternância de cargas proposta neste
modelo de microciclo. Deste modo, apresenta-se de seguida a proposta de
estrutura do microciclo, tendo como referência a realização do jogo ao sábado.
Tabela
1: Microciclo proposto com jogo ao sábado
|
Dia |
Tipo
de Sessão |
Objetivos
Principais |
|
Domingo |
Recuperação
Ativa (MD+1) |
Reduzir
DOMS*, facilitar retorno circulatório, diferenciação entre grupos |
|
Segunda |
Folga
Total (MD+2) |
Continuação
da recuperação fisiológica e psicológica |
|
Terça |
Força
específica (MD-4) |
Estímulo
neuromuscular + execução sob fadiga |
|
Quarta |
Resistência
específica (MD-3) |
Capacidade
aeróbia e organização ofensiva ou defensiva |
|
Quinta |
Velocidade
+ Finalização (MD-2) |
Estímulo
neural e transições |
|
Sexta |
Reação
+ Bola Parada (MD-1) |
Ativação
leve + conteúdos situacionais |
|
Sábado |
Jogo
(MD) |
Competição |
*DOMS: Delayed Onset Muscle Soreness
A estrutura do microciclo
proposto assenta em fundamentos científicos consistentes que orientam a escolha
dos conteúdos e da intensidade de cada sessão. Estudos como os de
Primeiramente, no MD+1, dá-se
prioridade à recuperação ativa, com o objetivo de reestruturar, regenerar e
recuperar o organismo (Tobar, 2018),
facilitando a remoção de resíduos metabólicos, melhorando o estado de humor e
restaurando a disponibilidade neuromuscular
Já o MD+2 é destinado ao
descanso completo, sendo fundamental para a consolidação da recuperação
fisiológica após o esforço competitivo. Estudos indicam que, em contextos de
alta exigência, a recuperação neuromuscular pode requerer até 72 horas
Entrando no período
aquisitivo, no MD-4, pretende-se estimular um regime de dominância da tensão
máxima da contração muscular, através da realização de exercícios que promovam
o aparecimento do ciclo alongamento-encurtamento (Tobar, 2018). Para isso, recorre-se a tarefas em espaços
reduzidos, envolvendo poucos jogadores e com durações curtas, nomeadamente
através da concretização de jogos reduzidos que induzem acelerações,
desacelerações e ações de alta intensidade, promovendo a força explosiva e a resistência
neuromuscular
No dia seguinte, o MD-3
centra-se na resistência intermitente e na organização tática, tendo em conta
que jogos com maior número de jogadores e espaços amplos favorecem a coordenação
coletiva e a resistência específica ao jogo
Devido ao desgaste do
treino anterior e à proximidade da competição, o MD-2 assume-se como um dia de
aquisição individual, centrado num regime de dominância da velocidade máxima da
contração muscular (Tobar, 2018). Este
momento é dedicado à realização de exercícios que simulam transições rápidas, com
o objetivo de otimizar a velocidade de deslocamento e a eficácia nas
finalizações
Finalmente, no MD-1, é
necessário conjugar a recuperação da equipa com a sua pré-ativação para as
exigências do jogo no sábado, garantindo que não se induz fadiga (Tobar, 2018). Este dia é reservado à consolidação
de aspetos táticos e à preparação mental da equipa, em contextos de baixa complexidade
e larga recuperação. As sessões, de curta duração, com ênfase em bolas paradas,
organização defensiva e rotinas estratégicas, visam reforçar os padrões de
jogo, promover confiança coletiva e assegurar a ativação neuromuscular sem provocar
desgaste adicional significativo
A organização do
microciclo semanal visa promover dias de aquisição em MD-4 e MD-3, nos quais se
encontram concentrados os estímulos de maior carga e complexidade. A partir de
MD-2, inicia-se uma redução progressiva da intensidade (fase de tapering), preparando o organismo para o
jogo. Nos dois primeiros dias após a competição, privilegia-se a recuperação
ativa em MD+1 e o repouso absoluto em MD+2, favorecendo a regeneração e o
reinício do ciclo.
No que diz respeito às
capacidades motoras desenvolvidas ao longo da semana, destaca-se o trabalho de
força explosiva através de jogos reduzidos com duelos intensos
Em suma, a estruturação
do microciclo com foco nas capacidades motoras específicas de cada dia, recorrendo
a espaços e número de jogadores adequados, é sustentada por evidência
científica que comprova a sua eficácia no desenvolvimento das capacidades
físicas e táticas dos jogadores. A integração dos onze princípios de
periodização propostos por
Referências Bibliográficas:
Buchheit, M., Douchet, T., Settembre, M., McHugh,
D., Hader, K., & Verheijen, R. (2024). Microcycle periodization in elite
football the 11 evidence-informed and inferred principles of microcycle
periodization in elite football. Sport
Performance and Science Reports.
Buchheit, M., Settembre, M., Hader, K., & McHugh, D. (2023).
Exposures to near-to-maximal speed running bouts during different turnarounds
in elite football: association with match hamstring injuries. Biology of
Sport, 40(4), 1057–1067. https://doi.org/10.5114/BIOLSPORT.2023.125595
Christopher, J., Beato, M., & Hulton, A. T. (2016). Manipulation of
exercise to rest ratio within set duration on physical and technical outcomes
during small-sided games in elite youth soccer players. Human Movement
Science, 48, 1–6. https://doi.org/10.1016/J.HUMOV.2016.03.013
Clemente, F. M., Afonso, J., & Sarmento, H. (2021). Small-sided
games: An umbrella review of systematic reviews and meta-analyses. Plos One,
16(2), e0247067. https://doi.org/10.1371/JOURNAL.PONE.0247067
Douchet, T., Paizis, C., & Babault, N. (2022). Physical impact of a
typical training session with different volumes on the day preceding a match in
academy soccer players. International Journal of Environmental Research and
Public Health, 19(21). https://doi.org/10.3390/IJERPH192113828
Franceschi, A., Robinson, M. A.,
Owens, D. J., Brownlee, T., Bampouras, T. M., Ferrari Bravo, D., & Enright,
K. (2024). Training loads and microcycle periodisation in Italian
Serie A youth soccer players. Journal of Sports Sciences. https://doi.org/10.1080/02640414.2024.2391648
Gantois, P., Caputo Ferreira, M. E.,
Lima-Junior, D. de, Nakamura, F. Y., Batista, G. R., Fonseca, F. S., &
Fortes, L. de S. (2020). Effects of mental fatigue on passing
decision-making performance in professional soccer athletes. European
Journal of Sport Science, 20(4), 534–543.
https://doi.org/10.1080/17461391.2019.1656781
Gréhaigne, J. F., & Godbout, P. (1995). Tactical knowledge in team
sports from a constructivist and cognitivist perspective. Quest, 47(4),
490–505. https://doi.org/10.1080/00336297.1995.10484171
Hill-Haas, S. V., Dawson, B. T., Coutts, A. J., & Rowsell, G. J.
(2009). Physiological responses and time–motion characteristics of various
small-sided soccer games in youth players. Journal of Sports Sciences, 27(1),
1–8. https://doi.org/10.1080/02640410802206857
Hostrup, M., & Bangsbo, J. (2023). Performance adaptations to
intensified training in top-level football. Sports Medicine, 53(3), 577-594. https://doi.org/10.1007/s40279-022-01791-z
Iaia, M. F., Rampinini, E., &
Bangsbo, J. (2009). High-intensity training in football. International
Journal of Sports Physiology and Performance, 4(3), 291–306.
https://doi.org/10.1123/IJSPP.4.3.291
Jeffries, A. C., Marcora, S. M., Coutts, A. J., Wallace, L., McCall, A.,
& Impellizzeri, F. M. (2022). Development of a revised conceptual framework
of physical training for use in research and practice. Sports Medicine, 52(4),
709–724. https://doi.org/10.1007/s40279-021-01551-5
Lacome, M., Simpson, B. M., Cholley, Y., Lambert, P., & Buchheit, M.
(2018). Small-sided games in elite soccer: Does one size fit all? International
Journal of Sports Physiology and Performance, 13(5), 568–576.
https://doi.org/10.1123/IJSPP.2017-0214
Mohr, M., Krustrup, P., Andersson, H., Kirkendal, D., & Bangsbo, J.
(2008). Match activities of elite women soccer players at different performance
levels. Journal of Strength and Conditioning Research, 22(2),
341–349. https://doi.org/10.1519/JSC.0B013E318165FEF6
Mujika, I., Santisteban, J., Impellizzeri, F. M., & Castagna, C.
(2009). Fitness determinants of success in men’s and women’s football. Journal
of Sports Sciences, 27(2), 107–114. https://doi.org/10.1080/02640410802428071
Oliva-Lozano, J. M., Gómez-Carmona,
C. D., Fortes, V., & Pino-Ortega, J. (2022). Effect of
training day, match, and length of the microcycle on workload periodization in
professional soccer players: A full-season study. Biology of Sport, 39(2),
397–406. https://doi.org/10.5114/biolsport.2022.106148
Pimenta, R., Cunha, L., & Nakamura, F. Y. (2025). Impact of
post-match fatigue on peak force in elite youth soccer players: Analysis of 48
to 72 hours post-match using the isometric mid-thigh pull exercise. Biology of Sport, 42(4), 145–152.
https://doi.org/10.5114/biolsport.2025.150044
Posse-Álvarez, M., Solleiro-Duran,
D., Lorenzo-Martínez, M., Iglesias-Soler, E., Oliva-Lozano, J. M., &
Padrón-Cabo, A. (2025). Does microcycle length influence the
external and internal load in professional female soccer players? Biology of
Sport, 42(2), 215–223. https://doi.org/10.5114/biolsport.2025.144408
Praça, G. M., Teoldo, I., & Greco, P. J. (2018). Pequenos jogos no futebol: Princípios
táticos fundamentais em situações de superioridade numérica. Revista
Brasileira de Educação Física e Esporte, 32(4), 569–580.
https://doi.org/10.11606/ISSN.1981-4690.V32I4P569-580
Sarmento, H., Clemente, F. M.,
Harper, L. D., Costa, I. T. da, Owen, A., & Figueiredo, A. J. (2018). Small sided games
in soccer – A systematic review. International Journal of Performance
Analysis in Sport, 18(5), 693–749. https://doi.org/10.1080/24748668.2018.1517288
Tobar, J. B. (2018). Periodização
tática: Entender e aprofundar a metodologia que revolucionou o treino do
futebol. Prime Books.
Wilke, C. F., Coimbra, C. C., Drummond, F. R., Drummond, L. R., Campos, H. O., Kanope, T., & Ramos, G. P. (2023). Differences between 48 and 72-hour intervals on match load and subsequent recovery: A report from the Brazilian under-20 national football team. Frontiers in Sports and Active Living, 5. https://doi.org/10.3389/fspor.2023.1164454


Comentários
Enviar um comentário