Fatores do Jogo no Futebol: Como desenvolvê-los em contexto de treino?


O futebol é um desporto complexo que exige o desenvolvimento de múltiplos fatores, incluindo habilidades táticas, estratégicas, técnicas, físicas e psicológicas. Posto isto, é de suma importância que cada um desses fatores seja abordado, em contexto de treino, de forma integrada e contextualizada, considerando as necessidades individuais dos jogadores e os objetivos da equipa. Consequentemente, para a sua operacionalização, Bompa e Buzzichelli (2019) enfatizam a importância de um planeamento estruturado que respeite a individualidade do atleta. A intensidade do treino, por exemplo, deve ser ajustada para evitar lesões e garantir progressão, ao passo que exercícios específicos para cada posição podem otimizar o desempenho. 

No que concerne às duas primeiras habilidades mencionadas anteriormente, embora os conceitos de ‘estratégia’ e ‘tática’ sejam comummente empregues no futebol, é importante proceder à sua distinção, para uma melhor compreensão da sua aplicação. A origem destes termos, nos desportos coletivos, remonta ao vocabulário utilizado em contextos de guerra há largos anos (Gréhaigne et al., 1999). Assim, a estratégia representa as ideias e princípios de jogo, previamente definidos pelo treinador, de modo a orientar a equipa em direção a um objetivo, ao passo que a tática envolve todas as ações executadas pelos jogadores, de forma a adaptarem-se às exigências e problemas que o jogo impõe (Taylor et al., 2005). Desta forma, a estratégia está associada a decisões refletidas, sem restrições temporais, enquanto a tática está sujeita a fortes constrangimentos, resultantes de um adversário em constante mudança (Gréhaigne et al., 1999).

Considerando que a ‘tática’ depende das respostas que os jogadores conseguem dar perante a estratégia delineada, é possível deduzir que esta componente é fortemente influenciada pelo perfil técnico dos jogadores. Assim sendo, embora os fatores tático-estratégicos sejam relevantes, a eficiência da sua operacionalização depende diretamente das técnicas utilizadas pelos atletas, visto que padrões biomecânicos corretos reduzem o gasto energético, otimizam o desempenho e garantem maior economia de esforço. Em contrapartida, a técnica desportiva desenvolve-se continuamente em função de inovações tecnológicas e criativas, podendo tornar desatualizados os métodos que outrora se mostravam eficazes. Tais inovações podem originar-se tanto da vivência prática dos treinadores, como de estudos científicos que analisam os aspetos fisiológicos e mecânicos da modalidade (Bompa & Buzzichelli, 2019). Assim sendo, no futebol, o desenvolvimento técnico envolve a melhoria de habilidades como o controlo de bola, o passe, o drible e o remate. Para maximizar a transferência de habilidades, é fundamental que o treino técnico seja contextualizado, simulando situações reais de jogo (Williams & Hodges, 2005). No entanto, é fundamental considerar que a fadiga impacta negativamente a qualidade técnica, tornando indispensável uma periodização adequada que priorize o desenvolvimento da técnica em momentos de menor desgaste físico, assegurando que os atletas possam melhorar as suas habilidades sem interferências da exaustão (Bompa & Buzzichelli, 2019)

Os fatores físicos, nomeadamente a resistência, a velocidade, a força e a agilidade, são igualmente essenciais na prática desportiva e, particularmente, nos desportos coletivos. Estas capacidades permitem que os jogadores mantenham um alto desempenho, reduzam a probabilidade de ocorrência de lesões e acelerem a recuperação, integrando-se ao treino técnico-tático para otimizar o rendimento e prolongar a carreira. Desta forma, o treino físico deve ser cuidadosamente planeado para atender às exigências específicas do jogo, o que está alinhado com a perspetiva de Bompa e Buzzichelli (2019). Estes autores destacam a importância da periodização do treino, considerando estas variáveis como fatores cruciais para evitar lesões e garantir progressos consistentes. Além disso, construir exercícios específicos que procurem encaixar as ações individuais de cada posição em função da ideia coletiva, ajudam a otimizar o desempenho em situações reais de jogo, tendo o modelo de jogo como linha orientadora (Gouveia, 2023).

Outro ponto relevante a considerar é a dinâmica psicológica, incluindo a comunicação e a liderança, que são fundamentais para o sucesso de uma equipa. Além disso, a preparação mental, muitas vezes negligenciada, é tão importante como o treino físico, técnico e tático para o desempenho desportivo. De acordo com Weinberg e Gould (2019), o fator psicológico desempenha um papel crucial no rendimento, influenciando aspetos como a motivação, a concentração, a capacidade de lidar com a pressão e a adversidade. A motivação, seja intrínseca ou extrínseca, é o motor que impulsiona os atletas a superarem desafios e a alcançarem objetivos (Weinberg & Gould, 2019). Para além disso, a resiliência e a mentalidade de crescimento também são essenciais, permitindo que os atletas observem os fracassos como oportunidades de aprendizagem e de se recuperem rapidamente de contratempos (Dweck, 2016).

Além dos fatores citados, as funções executivas, como a flexibilidade cognitiva, a memória de trabalho e a inibição de respostas, são fundamentais para o desempenho no futebol, e podem, inclusive, prever o sucesso futuro dos atletas (Vestberg et al., 2012). As funções executivas podem ser definidas como processos de controlo cognitivo, responsáveis por regular o comportamento em direção a um determinado objetivo (Heilmann et al., 2024; Heisler et al., 2023). Segundo Lehmann (2023), a flexibilidade cognitiva representa a capacidade de mudança e adaptação consoante as exigências ambientais, ao passo que a memória de trabalho engloba a capacidade em reter e manipular mentalmente a informação. Por outro lado, a inibição corresponde à habilidade de um indivíduo para controlar a atenção, o comportamento e os pensamentos, permitindo optar por decisões racionais ao invés de impulsivas.

Em suma, tendo em conta que os fatores de treino são indissociáveis, torna-se imperativo questionar de que forma a programação do treino pode favorecer a melhoria das questões táticas, estratégicas, técnicas, físicas e psicológicas, de forma holística, de modo a aproximar a equipa do sucesso (Kusuma et al., 2024). Com o avanço tecnológico, a recolha de dados passou a ser mais acessível, permitindo a personalização dos treinos com base em informações individualizadas sobre cada atleta (Filetti et al., 2017). Desta forma, os treinadores podem conceber cenários de treino específicos para o desenvolvimento de determinadas capacidades, conforme a posição ocupada em campo.

Neste sentido, a adoção de um modelo de treino integrado, que considere as exigências específicas da modalidade e do modelo de jogo, é essencial para maximizar o potencial dos jogadores e garantir uma progressão sustentável ao longo da carreira. Assim sendo, a combinação entre conhecimento científico e experiência prática dos treinadores desempenha um papel crucial na construção de um ambiente de treino eficiente, saudável e adaptado às exigências do futebol moderno.

 

Referências Bibliográficas:

Bompa, T. O., & Buzzichelli, C. (2019). Periodization: Theory and methodology of training (6th ed.). Human Kinetics.

Dweck, C. S. (2016). Mindset: The new psychology of success. Ballantine Books.

Filetti, C., Ruscello, B., D’Ottavio, S., & Fanelli, V. (2017). A study of relationships among technical, tactical, physical parameters and final outcomes in elite soccer matches as analyzed by a semiautomatic video tracking system. Perceptual and Motor Skills, 124(3), 601-620. https://doi.org/10.1177/0031512517692904

Gouveia, V. (2023). Treino em futebol: O exercício de treino como meio de comunicar uma forma de jogar. Lidel.

Gréhaigne, J. F., Godbout, P., & Bouthier, D. (1999). The foundations of tactics and strategy in team sports. Journal of Teaching in Physical Education, 18(2), 159-174. https://doi.org/10.1123/jtpe.18.2.159

Heilmann, F., Knöbel, S., & Lautenbach, F. (2024). Improvements in executive functions by domain-specific cognitive training in youth elite soccer players. BMC Psychology, 12(1), Article 528. https://doi.org/10.1186/s40359-024-02017-9

Heisler, S. M., Lobinger, B. H., & Musculus, L. (2023). A developmental perspective on decision making in young soccer players: The role of executive functions. Psychology of Sport and Exercise, 65, Article 102362. https://doi.org/10.1016/j.psychsport.2022.102362

Kusuma, I. D. M. A. W., Kusnanik, N. W., Lumintuarso, R., Phanpheng, Y., Daniswara, L. D., & Dari, R. W. (2024). The holistic and partial approach in soccer training: Integrating physical, technical, tactical, and mental components: A systematic review. Retos, 54, 328-337. https://doi.org/10.47197/RETOS.V54.102675

Lehmann, J. (2023). Is there a relationship between executive functions and resilience in youth elite soccer players?. Brain and Behavior, 13(10), Article e3122. https://doi.org/10.1002/brb3.3122

Taylor, B. J., Mellalieu, D. S., & James, N. (2005). A comparison of individual and unit tactical behaviour and team strategy in professional soccer. International Journal of Performance Analysis in Sport, 5(2), 87-101. https://doi.org/10.1080/24748668.2005.11868329

Vestberg, T., Gustafson, R., Maurex, L., Ingvar, M., & Petrovic, P. (2012). Executive functions predict the success of top-soccer players. PLOS ONE, 7(4), Article e34731. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0034731

Weinberg, R. S., & Gould, D. (2019). Foundations of sport and exercise psychology (7th ed.). Human Kinetics.

Williams, A. M., & Hodges, N. J. (2005). Practice, instruction and skill acquisition in soccer: Challenging tradition. Journal of Sports Sciences, 23(6), 637-650. https://doi.org/10.1080/02640410400021328

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