Variação da Carga Externa por Posição no Futebol


O futebol é uma modalidade desportiva intermitente de elevada intensidade, caracterizada por ações explosivas intercaladas com pausas ativas. As exigências físicas impostas aos jogadores variam substancialmente consoante a posição que ocupam em campo. Nesta perspetiva, de acordo com Gaudino et al. (2013), a carga externa corresponde a um conjunto de variáveis objetivas, como a distância percorrida, o número de sprints, acelerações e desacelerações, sendo frequentemente utilizada para monitorizar o esforço físico dos jogadores durante treinos e jogos. Compreender a distribuição destas exigências por posição é, por isso, essencial para o planeamento do treino, a prevenção de lesões e a otimização do rendimento. Assim, com esta reflexão propõe-se analisar, com base na evidência científica disponível, as diferenças posicionais da carga externa no futebol e refletir sobre as suas implicações práticas na preparação do atleta.

Os laterais e os alas/extremos são, habitualmente, as posições que acumulam maiores exigências físicas ao longo do jogo. Os jogadores de futebol de elite percorrem, em média, entre 10 e 12 quilómetros por partida, sendo que aproximadamente 7% a 11% dessa distância é realizada a velocidades de alta intensidade (entre 19,8 km/h e 25,1 km/h), e cerca de 1% a 3% em sprint (>25,1 km/h) (Bradley et al., 2010; Gualtieri et al., 2023). Além disso, devido à sua participação constante em transições ofensivas e defensivas, apresentam valores mais elevados de acelerações e desacelerações (> 3 m/s²), o que intensifica o impacto físico ao longo do jogo (Martín-García et al., 2018). Estas exigências requerem uma elevada capacidade de recuperação entre esforços e resistência a sprints repetidos.

Por outro lado, os médios-centro são os que apresentam os maiores valores de carga externa ao longo de uma época (Akyildiz et al., 2023), distinguindo-se pelo elevado volume total de deslocamento – geralmente entre 10 e 11 quilómetros por jogo –, refletindo a sua função de ligação entre setores e presença constante em momentos ofensivos e defensivos (Bradley et al., 2013; Salvo et al., 2006). Embora a intensidade máxima seja inferior à de laterais ou alas/extremos, estes jogadores enfrentam elevadas exigências do ponto de vista cognitivo e técnico-tático, resultado da constante necessidade de tomada de decisão sob pressão, elevada frequência de ações com bola e envolvimento nos momentos de organização e transição (Bradley et al., 2013; Rampinini et al., 2007; Sarmento et al., 2018). Os médios ofensivos, em particular, caracterizam-se pela realização frequente de sprints curtos e mudanças de direção, destacando-se pelas ações rápidas em zonas de criação, onde operam sob elevada exigência técnico-tática (Dellal et al., 2011; Sarmento et al., 2018). Apesar disso, o perfil de carga externa dos médios varia conforme o período da época, registando um decréscimo no final da temporada em comparação com a fase intermédia da época (Akyildiz et al., 2023).

Relativamente aos defesas centrais e aos avançados, observa-se um contraste significativo, pois os defesas centrais percorrem, em média, entre 9 a 10 quilómetros por jogo, apresentando uma menor exposição a esforços de alta intensidade (Bradley et al., 2013; Salvo et al., 2006). No entanto, são constantemente solicitados em duelos físicos, coberturas defensivas e reposicionamentos, sobretudo em momentos de pressão alta ou transições adversárias (Bloomfield et al., 2007; Bush et al., 2015; Salvo et al., 2006). Por outro lado, os avançados exibem um perfil de carga marcadamente explosivo, caracterizado por ações curtas e intensas, como desmarcações, movimentos de rutura e situações de finalização, que exigem acelerações de elevada intensidade e potência neuromuscular. Em média, estes jogadores percorrem entre 280 a 345 metros por jogo em sprints acima dos 25 km/h, sendo uma das posições com maior exposição a este tipo de esforço. Além disso, este limiar representa apenas cerca de 75% da velocidade máxima individual destes jogadores, o que sugere uma predisposição fisiológica para atingir frequentemente essa intensidade, sobretudo em contextos de contra-ataque ou mobilidade ofensiva, implicando uma elevada capacidade de recuperação entre esforços (Sarmento et al., 2024; Silva et al., 2024).

Dada a variabilidade da carga externa entre posições, torna-se imprescindível individualizar a preparação dos atletas. No caso dos laterais e alas, recomenda-se a inclusão de métodos orientados para a resistência a sprints repetidos e para o desenvolvimento da capacidade de aceleração, dada a elevada frequência de ações intensas ao longo do jogo (Buchheit & Laursen, 2013). Para os médios, é pertinente investir em treinos de resistência intermitente e simulações de tomada de decisão sob fadiga, com o objetivo de reproduzir as exigências cognitivas e fisiológicas do jogo real (Sarmento et al., 2018). Já para os avançados, os programas devem privilegiar o trabalho de potência e velocidade máxima, focando em ações de curta duração e elevada intensidade, essenciais para manter o desempenho nas fases ofensivas (Haugen et al., 2020).

Neste seguimento, e em consonância com o estudo de Baptista et al. (2020), que comparou as cargas de treino e de jogo, verificou-se que, durante os treinos, os laterais atingem, em média, apenas 64% da intensidade de sprints observada nos momentos mais exigentes dos jogos. Em contraste, os centrais, médios-centro e avançados-centro igualam ou superam esse valor (107%, 100% e 107%, respetivamente). Este resultado evidencia uma menor exposição dos laterais às exigências máximas de sprint em treino, podendo indicar uma menor especificidade na preparação física desta posição.

No entanto, importa sublinhar que a variação da carga externa no futebol não depende exclusivamente da posição dos jogadores, mas também de variáveis contextuais como o local do jogo, o resultado e o estado momentâneo da partida. Por exemplo, médios, laterais e avançados tendem a apresentar maiores picos de exigência física, especialmente em jogos disputados fora de casa ou em situações de empate, enquanto os defesas-centrais registam, em média, cargas mais reduzidas, mesmo nos períodos mais intensos do jogo. Estes resultados reforçam a necessidade de ajustar o planeamento do treino às exigências contextuais da competição (Augusto et al., 2022; Guimarães., et al., 2024; Lozano et al., 2021; Oliva-Lozano et al., 2021).

Adicionalmente, torna-se relevante assinalar que o modelo de jogo da equipa – seja pela preferência por um jogo mais apoiado ou, em alternativa, mais vertical – pode impactar significativamente as exigências físicas de cada posição (Baptista et al., 2018).

Em síntese, a carga externa no futebol varia de forma acentuada conforme a posição ocupada, refletindo diferenças nas exigências físicas, táticas e cognitivas, mas também influenciada pelos fatores contextuais. Assim, a monitorização sistemática destas variáveis, através de tecnologias como GPS e análise de vídeo, permite uma abordagem mais precisa e individualizada do treino, favorecendo o desempenho e contribuindo para a redução da probabilidade de ocorrência de lesões. Por conseguinte, reconhecer e respeitar estas diferenças posicionais e contextuais deve, portanto, ser uma prioridade no planeamento e na gestão da carga em contexto de treino e competição.


Referências Bibliográficas:


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