Maturação Precoce e Tardia: Qual o Impacto da Maturação Biológica no Desempenho Desportivo no Futebol?

 


A maturação biológica é um processo individual que condiciona o desenvolvimento físico, motor e psicossocial dos jovens atletas. Esta variável assume particular relevância no futebol, uma modalidade que exige elevadas competências físicas, cognitivas e sociais desde as fases iniciais da formação. As diferenças no ritmo maturacional originam desigualdades no desempenho e nas oportunidades competitivas. A presente reflexão analisa os efeitos da maturação precoce e tardia no rendimento desportivo, com enfoque nas suas implicações para o treino, seleção e formação de talentos.

Para contextualizar o impacto destas diferenças no desempenho, importa clarificar os conceitos fundamentais de crescimento, desenvolvimento e maturação. A maturação biológica refere-se à progressão até ao estado funcional adulto, sendo habitualmente avaliada por idade óssea, estágios de Tanner (classificação do desenvolvimento pubertário com base em características sexuais secundárias) ou pela idade do pico de velocidade de crescimento (PHV). O crescimento diz respeito ao aumento da dimensão corporal, predominante nas duas primeiras décadas de vida, enquanto o desenvolvimento integra crescimento, maturação e alterações funcionais e comportamentais (Malina et al., 2004).

Compreendidos estes fundamentos, torna-se evidente que o ritmo maturacional tem impacto direto na trajetória e no desempenho dos jovens futebolistas. Atletas com maturação precoce tendem a apresentar vantagens temporárias ao nível da força, velocidade, potência e composição corporal, o que frequentemente os favorece nos processos de seleção em idades jovens, embora estas vantagens raramente se prolonguem na transição para o escalão sénior (Malina et al., 2004; Meylan et al., 2010). Estas vantagens incidem sobretudo sobre componentes neuromusculares específicas, como a velocidade máxima, a mudança de direção e a força reativa dos membros inferiores, enquanto a aceleração e o salto vertical parecem não ser significativamente influenciados (Lehnert et al., 2024). Por outro lado, atletas com maturação tardia são muitas vezes preteridos, apesar de evidenciarem elevado potencial a longo prazo, sendo excluídos com base em limitações físicas transitórias que não refletem o seu verdadeiro valor desportivo (Lehnert et al., 2024; Meylan et al., 2010).

Neste sentido, a consideração do estado maturacional assume um papel central na construção de critérios de avaliação mais equitativos, permitindo reconhecer talentos para além das diferenças morfológicas temporárias. A adoção de uma perspetiva de desenvolvimento a longo prazo, assente na monitorização do crescimento e na individualização do treino, surge como estratégia mais adequada ao contexto do futebol de formação, contribuindo para evitar exclusões prematuras e fomentar percursos mais sustentados.

Importa sublinhar, contudo, que a vantagem maturacional não se traduz, necessariamente, em superioridade técnica ou tática, uma vez que estas competências não estão diretamente relacionadas com o estado de maturação. Contudo, a maior exposição competitiva dos precoces tende a favorecer o seu desenvolvimento nessas áreas. Paralelamente, estudos indicam que atletas tardios desenvolvem frequentemente competências cognitivas e táticas mais refinadas como forma de compensar limitações físicas temporárias, o que poderá constituir um fator diferenciador em fases mais avançadas da formação (Figueiredo et al., 2009).

A maturação precoce tende ainda a acentuar o efeito relativo da idade (RAE), favorecendo atletas nascidos nos primeiros meses do ano, geralmente mais desenvolvidos fisicamente. Esta vantagem é frequentemente confundida com talento, conduzindo à exclusão prematura de jovens com maturação mais tardia. Romann e Cobley (2015) demonstraram que, em disciplinas como o sprint, a diferença de idade relativa pode representar até 10% do desempenho aos oito anos, mantendo-se significativa até os quinze. Como proposta mitigadora, os autores sugerem ajustes baseados na idade relativa, capazes de reduzir os efeitos do RAE em contextos competitivos, promovendo critérios de seleção mais equitativos.

Neste contexto, a segmentação por maturação (bio-banding) surge como uma proposta viável para garantir maior justiça nas competições de formação, permitindo avaliações mais realistas do potencial a longo prazo (Cumming et al., 2017). De igual modo, a identificação de talentos deve assentar numa abordagem multidimensional que integre variáveis físicas, técnicas, psicológicas, sociais e contextuais (Ford et al., 2011).

Embora a maturação precoce possa traduzir-se em vantagens evidentes numa fase inicial, isso não significa que seja determinante para o sucesso desportivo a longo prazo. A priorização exclusiva de critérios físicos no processo de seleção pode comprometer o percurso de atletas com maturação tardia, muitos dos quais revelam uma inteligência de jogo apurada, maior capacidade de adaptação e um nível de compromisso particularmente elevado. Neste sentido, torna-se essencial que treinadores e estruturas formativas adotem uma abordagem mais inclusiva, centrada no potencial de desenvolvimento e não apenas no rendimento imediato.

Fitzgerald et al. (2025) referem ainda que a precisão das avaliações dos treinadores relativamente ao estado maturacional dos seus atletas pode ser limitada. Adicionalmente, o grau de concordância entre treinadores no que toca à identificação de atletas talentosos revela-se subjetivo, intuitivo e altamente variável, o que pode comprometer o processo de seleção durante a adolescência.

Neste sentido, apesar do reconhecimento da importância deste fator no desenvolvimento dos jovens atletas em escalões de formação, ainda existe um longo caminho a percorrer no que diz respeito à aplicação sistemática de instrumentos de avaliação contínuos ao longo das diferentes etapas formativas. Segundo Arenas et al. (2024), nas academias alemãs, por exemplo, continua a verificar-se uma reduzida sensibilidade para a implementação de métodos de avaliação da maturação, bem como para a adaptação do treino com base no estado maturacional. O método predominantemente utilizado é a equação do offset de maturação, que recorre a variáveis como a idade cronológica, peso, altura, altura sentado e comprimento da perna para estimar a proximidade ao PHV. No entanto, este método tem sido alvo de críticas, em virtude da sua precisão e fiabilidade limitadas, o que reforça a necessidade de alternativas metodológicas mais robustas.

As repercussões dos estados maturacionais no futebol de formação encontram-se sintetizadas na Tabela 1.

Tabela 1: Implicações da maturação no futebol de formação

Perfil de Maturação

Características Principais

Riscos no Processo de Seleção

Estratégias Recomendadas

Precoce

Maior força, velocidade e massa corporal; destaque físico inicial

Seleção precoce baseada em vantagens transitórias

Monitorização contínua; não sobrevalorizar precocidade

Tardia

Limitações físicas temporárias; desenvolvimento tardio de força e potência

Exclusão injusta de atletas com elevado potencial futuro

Avaliação por idade biológica; inclusão prolongada

Geral

Maturação influencia performance, mas não determina qualidade técnica ou tática

Redução da diversidade maturacional; homogeneização precoce

Bio-banding; desenvolvimento a longo prazo


Por último, a avaliação periódica do crescimento e da maturação dos atletas torna-se essencial para a definição de protocolos adequados de prevenção de lesões. De acordo com Wik (2022), existe uma incidência específica de lesões associadas às zonas de crescimento, menos frequentes em jogadores que se aproximam da maturação esquelética e da estatura adulta. Além disso, taxas de crescimento abruptas estão associadas a um risco acrescido de lesão no contexto do futebol de formação de elite. Estes fatores reforçam a necessidade de uma gestão criteriosa da carga de treino, da recuperação e da nutrição, reconhecendo que cada atleta possui um ritmo de maturação individual, o que impõe desafios e exige adaptações constantes.

Em suma, a maturação biológica tem uma influência marcante no desempenho desportivo ao afetar diretamente os processos de seleção, os métodos de treino e a permanência dos atletas nos escalões competitivos, pelo que reconhecer e atenuar as desigualdades provocadas pelas diferenças maturacionais torna-se indispensável para garantir uma formação mais equitativa, eficaz e sustentada no futebol.

 

Referências Bibliográficas:

Arenas, L., Frenger, M., Skorski, S., & Meyer, T. (2024). Survey of the current practices of German football academies towards biological maturation assessment. Science and Medicine in Football, 8(4), 351-364. https://doi.org/10.1080/24733938.2023.2270563

Cumming, S. P., Lloyd, R. S., Oliver, J. L., Eisenmann, J. C., & Malina, R. M. (2017). Bio-banding in Sport: Applications to Competition, Talent Identification, and Strength and Conditioning of Youth Athletes. Strength & Conditioning Journal, 39(2), 34–47. https://doi.org/10.1519/ssc.0000000000000281

Figueiredo, A. J., Gonçalves, C. E., Coelho E Silva, M. J., & Malina, R. M. (2009). Youth soccer players, 11-14 years: Maturity, size, function, skill and goal orientation. Annals of Human Biology, 36(1), 60–73. https://doi.org/10.1080/03014460802570584

Fitzgerald, F., Campbell, M., Kearney, P. E., & Cumming, S. P. (2025). The eyes don’t have it: Coaches’ eye is not a valid method of estimating biological maturation in male Gaelic football. International Journal of Sports Science and Coaching, 20(1), 35-44. https://doi.org/10.1177/17479541241290585

Ford, P., Croix, M. D. S., Lloyd, R., Meyers, R., Moosavi, M., Oliver, J., Till, K., & Williams, C. (2011). The Long-Term Athlete Development model: Physiological evidence and application. Journal of Sports Sciences. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/02640414.2010.536849

Lehnert, M., Holík, R., Prycl, D., Sigmund, M., Sigmundová, D., & Malý, T. (2024). Talent Identification in Football: Different Effects of Maturation on Sprinting, Change of Direction and Jumping in 13-Year-Old Players. Applied Sciences, 14(13), Artigo 13. https://doi.org/10.3390/app14135571

Malina, R. M., Bouchard, C., & Bar-Or, O. (2004). Growth, Maturation, and Physical Activity. Human Kinetics.

Meylan, C., Cronin, J., Oliver, J., & Hughes, M. (2010). Talent identification in soccer: The role of maturity status on physical, physiological and technical characteristics. International Journal of Sports Science and Coaching, 5(4), 571–592. https://doi.org/10.1260/1747-9541.5.4.571

Romann, M., & Cobley, S. (2015). Relative Age Effects in Athletic Sprinting and Corrective Adjustments as a Solution for Their Removal. PLoS ONE, 10(4), e0122988. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0122988

Wik, E. H. (2022). Growth, maturation and injuries in high-level youth football (soccer): A mini review. Frontiers in Sports and Active Living, 4, Article 975900. https://doi.org/10.3389/fspor.2022.975900

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