O Papel do Treinador nos Desportos Coletivos

 


“O treinador ideal deve ser simultaneamente um treinador e um educador” (Sérgio, 2023).

Nos desportos coletivos, a interação entre os vários fatores que influenciam o rendimento é primordial, e a introdução de novas tecnologias representa uma ferramenta essencial para otimizar o treino (Paixão, 2018). No entanto, o treinador desempenha uma função de suma relevância, que transcende a simples transmissão de conhecimento técnico-tático, visto que atua como líder, responsável por traçar a estratégia, inspirar os atletas e, frequentemente, ser o principal fator da coesão e do êxito de uma equipa, independentemente da faixa etária ou do nível de competição em que se encontre. Além disso, num cenário em que a colaboração em equipa e a sinergia entre os jogadores são essenciais, o treinador exerce diversas funções, que abarcam a preparação física, técnica, tática e psicológica dos atletas (Paixão, 2018). Desta forma, com esta partilha, procuramos investigar a função do treinador no processo de desenvolvimento holístico do atleta, isto é, de maneira integral, enfatizando a sua relevância em aspetos de liderança, estratégia e aprimoramento humano.

Um dos aspetos mais importantes do papel do treinador nos desportos coletivos é a sua capacidade de liderança, pois liderar uma equipa não se resume apenas a dar instruções ou a tomar decisões táticas, implica, sobretudo, a capacidade de inspirar, motivar e gerir diferentes personalidades dentro de um grupo, considerando que cada atleta tem personalidade, características, motivações e desafios distintos, e o treinador deve ser capaz de criar um ambiente onde todos se sintam valorizados e integrados (Smith & Smoll, 2012).

Além disso, o treinador também exerce a sua liderança na gestão de conflitos e promove a coesão da equipa, onde a interdependência entre os atletas é fundamental, pois a harmonia dentro do grupo pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. Um bom treinador sabe como transformar rivalidades internas em competição saudável, além de saber como fomentar um espírito de equipa que ultrapasse os interesses individuais, incrementando a cultura da equipa (Lyle & Cushion, 2017).

Uma cultura de equipa saudável cria um clima propício ao sucesso, logo, quando os treinadores falam em desenvolver uma atitude vencedora, incutir compromisso, fomentar o orgulho e construir o espírito de equipa, falam sobre a cultura da equipa (Martens, 2012).

Outra dimensão fundamental do papel do treinador é a sua capacidade de planeamento estratégico, considerando que a tática e a estratégia desempenham um papel central nos desportos coletivos, e o treinador é responsável por definir o modelo de jogo da equipa, adaptando-o às características dos atletas, ao contexto das competições onde esteja inserido e às exigências dos adversários (Martens, 2012).

No entanto, a estratégia não se limita ao que acontece dentro de campo. Neste sentido, um bom treinador deve ser capaz de antecipar situações, analisar o desempenho da equipa e dos adversários, e ajustar as suas táticas e estratégias em função das circunstâncias. Esta capacidade de adaptação é de extrema importância em situações de pressão, como em jogos decisivos ou momentos críticos de uma competição (Jones et al., 2004).

Além disso, o treinador deve ser um estudioso do jogo, estando sempre atualizado sobre as tendências e inovações no desporto, para poder acompanhar a constante evolução dos desportos coletivos que, de certa forma, exige que os treinadores estejam sempre a aprender e a reinventar-se, procurando novas formas de maximizar o potencial da sua equipa (Côté & Gilbert, 2009).

Para além das competências estratégicas, técnicas e táticas, o treinador tem um papel crucial no desenvolvimento humano dos atletas, através da promoção de valores como o respeito, a disciplina, a humildade e a resiliência. Estes valores não só contribuem para o sucesso desportivo, mas também para a formação de cidadãos mais conscientes e responsáveis (Gould & Carson, 2008). Além disso, o treinador deve estar sempre atento ao bem-estar físico e emocional dos seus atletas, criando um ambiente de treino que promova o equilíbrio entre a exigência competitiva e o cuidado com a saúde mental. Um treinador consciente destes riscos deve saber quando exigir e quando dar espaço para o descanso e para a recuperação (Smith & Smoll, 2012).

Desta forma, como resultado de uma sociedade cada vez mais informada, os treinadores de futebol sabem que o trabalho desenvolvido em contexto de treino – físico, técnico e tático – não chega para garantir o sucesso desportivo de uma equipa e, particularmente, de um atleta. Ainda assim, nem sempre é reconhecida a devida importância da componente humana e das relações interpessoais, nomeadamente entre treinador e atleta.

A desvalorização do lado humano dos jogadores resulta de uma visão desacertada, na qual estes são tratados como “máquinas”, afastando a sua vertente emocional. Apesar de, atualmente, se reconhecer uma mudança de paradigma em relação ao período pós-Revolução Industrial – marcado pela predominância da eficácia, do rendimento e do progresso (Elias & Dunning, 1986) –, a ânsia descontrolada para alcançar vitórias, devido à pressão para não ser despedido, acaba por descurar o tempo que os treinadores dedicam à compreensão dos estados emocionais dos atletas.

Não obstante, se por um lado, uma relação de qualidade entre treinador e atleta poderá alavancar uma carreira de sucesso, uma interação deficiente poderá ser responsável pelo término de um percurso desportivo (Molinero et al., 2009). Uma comunicação débil pode resultar em conflitos, bem como em sentimentos de indiferença e insatisfação, que, segundo Crane e Temple (2015), representam razões importantes subjacentes ao abandono desportivo em jovens atletas.

Assim sendo, um dos principais desafios enfrentados por treinadores consiste em prevenir o abandono prematuro da prática desportiva, sobretudo entre os jovens, o que, frequentemente, está associado à ausência de motivação, à pressão excessiva ou à perceção de que o desporto perdeu o seu caráter prazeroso. Desta forma, a fim de evitar este fenómeno, o treinador deve adotar uma abordagem que valorize o processo de aprendizagem e o desenvolvimento individual, ao invés de se concentrar unicamente nos resultados. Portanto, é fundamental estabelecer um ambiente favorável, no qual os atletas se sintam suportados e incentivados, para preservar o interesse e a dedicação à prática desportiva (Deci & Ryan, 1985).

Em resumo, pode-se afirmar que a função do treinador nos desportos coletivos é abrangente e diversificada, exigindo não apenas conhecimentos técnicos, táticos e estratégicos, mas também capacidade de liderança, gestão de grupo e desenvolvimento humano, fazendo crer que um treinador eficiente é aquele que consegue harmonizar a exigência de competição com a preocupação pelo bem-estar dos atletas, promovendo um ambiente de trabalho que valorize tanto o êxito desportivo, como o crescimento pessoal.

Assim sendo, nos desportos coletivos, onde a cooperação e o trabalho em equipa são essenciais, o treinador atua como o elemento integrador, sendo capaz de converter um conjunto de indivíduos numa equipa coesa e motivada. Logo, ao exercer esta função de forma assertiva, o treinador não favorece apenas o êxito desportivo, mas também promove a formação de atletas mais íntegros e realizados.

 

Referências Bibliográficas:

Côté, J., & Gilbert, W. (2009). An integrative definition of coaching effectiveness and expertise. International Journal of Sports Science & Coaching, 4(3), 307-323. https://doi.org/10.1260/174795409789623892

Crane, J., & Temple, V. (2015). A systematic review of dropout from organized sport among children and youth. European Physical Education Review, 21(1), 114-131. https://doi.org/10.1177/1356336X14555294

Deci, E. L., & Ryan, R. M. (1985). Intrinsic motivation and self-determination in human behavior. Springer.

Elias, N., & Dunning, E. (1986). Quest for excitement: Sport and leisure in the civilizing process. Basil Blackwell.

Gould, D., & Carson, S. (2008). Life skills development through sport: Current status and future directions. International Review of Sport and Exercise Psychology, 1(1), 58-78. https://doi.org/10.1080/17509840701834573

Jones, R., Armour, K. M., & Potrac, P. (2004). Sports coaching cultures: From practice to theory. Routledge.

Lyle, J., & Cushion, C. (2017). Sport coaching concepts: A framework for coaching practice (2nd ed.). Routledge.

Martens, R. (2012). Successful coaching (4th ed.). Human Kinetics.

Molinero, O., Salguero, A., Alvarez, E., & Márquez, S. (2009). Reasons for dropout in youth soccer: A comparison with other team sport. Motricidad : European Journal of Human Movement, 22.

Paixão, P. (2018). Bases metodológicas do treino nos desportos coletivos. In V. Loureiro & N. Loureiro (Eds.), Atividade física e desporto. Diversos contextos de intervenção (pp. 128-139). Instituto Politécnico de Beja.

Sérgio, M. (2023). Primeira Pessoa Ep. 8 [Interview]. RTP Play. https://www.rtp.pt/play/p11167/e831144/primeira-pessoa

Smith, R. E., & Smoll, F. L. (2012). Sport psychology for youth coaches: Developing champions in sports and life. Rowman & Littlefield Publishers. 

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