Preparação de uma sessão de treino


Em consonância com Tarragó et al. (2019), o exercício de treino no futebol representa a unidade fundamental do planeamento, sendo a base que, quando estruturada de forma coerente, dá forma e sentido à sessão de treino como um todo. Desta forma, o exercício é um meio privilegiado que o treinador e a sua equipa técnica usam para dar vida às suas ideias, reforçando os seus princípios através da operacionalização prática. Este permite, ainda, que os jogadores expressem as suas características através dos diferentes fatores do treino (técnicos, táticos, físicos e psicológicos), convertendo as ideias do treinador em comportamentos coletivos. Assim sendo, ao planear uma sessão de treino, é essencial prestar atenção aos detalhes e adaptar o treino às condições disponíveis, tendo a variável temporal como ponto de partida.

Diante do exposto, o tempo para planear, o tempo disponível dos jogadores, o tempo necessário para operacionalizar e o tempo para avaliar constituem-se como fatores importantes a considerar no planeamento do treino. Assim, a sessão de treino pode ser dividida em três momentos fundamentais: pré-treino, treino e pós-treino, cada um com particularidades a ter em conta (Santos & Pinheiro, 2020).

O pré-treino é o momento em que o treinador e a sua equipa técnica fazem um diagnóstico geral da fase em que se encontram e onde querem chegar, avaliando os recursos disponíveis, sejam eles temporais, materiais, espaciais ou humanos. A partir desta análise, planeiam, estruturam e definem as intenções e objetivos da sessão de treino, construindo exercícios que a integram e garantindo a coerência com o planeamento do microciclo, o modelo de jogo da equipa e as suas progressões ao longo dos ciclos (Santos & Pinheiro, 2020).

O momento da época onde a equipa se encontra constitui-se como um dos fatores que pode interferir, de forma substancial, na preparação de uma sessão de treino. Durante a pré-época, o foco está centrado na recuperação da condição física, na aquisição e consolidação dos princípios da equipa e na preparação técnica e tática (Lyakh et al., 2016). Esta fase caracteriza-se por um aumento progressivo das cargas (intensidade e volume) e por uma crescente especificidade do treino (Mujika et al., 2018). Enquanto isso, no período competitivo, os treinadores procuram desenvolver o seu modelo de jogo, aplicando nuances consoante o adversário que se avizinha. Desta forma, a análise tática do oponente representa uma parte fundamental para a conceção da planificação semanal, visto que permite identificar padrões táticos, janelas de oportunidade e potenciais ameaças (Garganta, 2009). De forma similar, a análise pós-jogo pode ajudar a detetar os aspetos positivos e negativos da equipa no encontro, possibilitando correções específicas sobre determinados comportamentos. A necessidade de análises detalhadas para a otimização do rendimento desportivo evidencia a importância de equipas multidisciplinares, incluindo um analista que mantenha contacto permanente com o treinador, fornecendo-lhe ferramentas essenciais para a preparação das sessões de treino (Wright et al., 2013). Para além disso, nesta fase, existe um desenvolvimento contínuo das capacidades motoras e psicológicas, bem como o aperfeiçoamento da técnica (Mujika et al., 2018). Por último, o período de transição deve permitir a recuperação física e psicológica após o período de competição, mantendo simultaneamente a condição física individual para evitar perdas acentuadas (Mujika et al., 2018). Caracteriza-se por uma diminuição da intensidade e do volume de treino.

Após analisar o momento da época em que a equipa está inserida, o treinador deve considerar a calendarização das competições para que possa definir criteriosamente os aspetos que pretende trabalhar. Desta forma, a aproximação à próxima competição pode condicionar os conteúdos do treino, devido à necessidade de gerir cuidadosamente o binómio esforço/recuperação (Cross et al., 2019). Um planeamento deficiente das cargas de treino, ou seja, desajustadas às necessidades individuais, pode causar fadiga excessiva e, consequentemente, uma quebra no rendimento na competição (Cross et al., 2019). Segundo Gleason (2022), calendários condensados e épocas longas podem agravar este cenário. Sendo assim, cabe às equipas técnicas assegurar uma periodização bem efetuada, de modo a garantir a segurança do jogador e a construção de um ambiente favorável para a maximização do seu desempenho.

Após a contextualização, os objetivos da sessão de treino devem ser estabelecidos de forma criteriosa e alinhados ao modelo de jogo, garantindo coerência e conexão com os comportamentos desejados. Para isso, os exercícios devem estar integrados à estrutura da sessão, que, por sua vez, se conecta ao microciclo, mesociclo e macrociclo (Gouveia, 2023). Esta hierarquia assegura que cada sessão contribua diretamente para a evolução dos atletas ao longo do processo de preparação e permite projetar o futuro, com foco no desenvolvimento das competências desejadas (Santos & Pinheiro, 2020). Para que sejam eficazes, os objetivos devem ser específicos, mensuráveis, atingíveis, realistas e temporais, possibilitando ajustes conforme necessário (Coach ID, s.d.). Para isso, a observação contínua do rendimento e a integração entre os diferentes níveis de planeamento são essenciais para garantir uma progressão estruturada e eficiente no desenvolvimento dos jogadores, tendo o exercício como principal ferramenta.

Assim sendo, a concretização dos objetivos passa pela seleção de exercícios adequados que promovam a adaptação dos jogadores às exigências do jogo. O treino deve ser estruturado para minimizar a influência da sorte e maximizar a eficiência da aprendizagem, garantindo que os exercícios estejam ajustados à zona de aprendizagem ideal. Desta forma, não devem ser demasiado fáceis, visto que impediria a evolução, nem excessivamente difíceis, o que inviabilizaria a execução. Esta abordagem permite que a prática deliberada seja direcionada para o alto rendimento, conectando-se à competição por meio de cenários de treino que simulam as exigências reais do jogo. Além disso, a motivação e o clima de aprendizagem desempenham um papel fundamental no envolvimento dos jogadores, assegurando que o processo de treino seja contínuo e sustentável (Lança, 2024).

Em decorrência, a escolha dos exercícios deve ter por base objetivos claros, o contexto da equipa e as características dos jogadores. Paralelamente, a estruturação dos mesmos deve considerar variáveis que podem influenciar a carga de treino e, consequentemente, o desempenho, como espaço, intensidade, duração, densidade, número de jogadores, constrangimentos e a complexidade (Branquinho et al., 2023; Santos & Pinheiro, 2020).

Assim, a dimensão do espaço do exercício influencia a dinâmica e a intensidade, dado que áreas reduzidas aumentam a frequência de ações e a tomada de decisão, enquanto espaços maiores favorecem deslocamentos em alta velocidade e exigem maior resistência. Posto isto, a intensidade determina o esforço que o contexto exige, obrigando a ser ajustada conforme a velocidade de execução, a complexidade da tarefa, constrangimentos e o nível de oposição (Lacome et al., 2017).

Do mesmo modo, a duração influencia a fadiga e a assimilação de padrões motores, sendo que exercícios curtos favorecem a explosividade e os mais longos trabalham a resistência. A densidade, que representa a relação entre o esforço e a recuperação, afeta a exigência metabólica e a assimilação tática.

Outro fator importante a considerar é a modificação e dinâmica do exercício através do número de jogadores. Segundo o estudo efetuado por Lacome et al. (2017), grupos e espaços menores estimulam ações individuais e decisões rápidas, ou seja, maior exigência mecânica, enquanto grupos e espaços maiores enfatizam a organização coletiva. Aliado a estes fatores, juntam-se os constrangimentos, como limitação de toques ou áreas específicas de ação que direcionam os comportamentos esperados no treino.

Por fim, o feedback extrínseco é essencial, pois, quando bem estruturado, interfere no estado motivacional e ajuda os jogadores a aprimorar o seu desempenho. Segundo Silva e Drews (2023), o feedback extrínseco desempenha um papel fundamental no desenvolvimento técnico, tático e psicológico dos jogadores de futebol, sendo mais eficaz quando aplicado estrategicamente para evitar dependência excessiva. Segundo o mesmo autor, diferentes formas de feedback, como verbal, visual e por vídeo, impactam diretamente a aprendizagem e o desempenho, sendo que reforços positivos tendem a ser mais benéficos para a motivação e evolução dos atletas.

Em suma, estes elementos devem estar alinhados com a monitorização constante do desempenho, fator indispensável para verificar se o treino está a gerar os resultados esperados e se a progressão dos jogadores está coerente com os objetivos estabelecidos.

 

Referências Bibliográficas:

Branquinho, L., Ferraz, R., Teixeira, J., Forte, P., & Marques, M. (2023). Detalhes no treino em futebol. Prime Books.

Coach ID. (s.d.). Regras de ouro na formulação de objetivos! https://coachidapp.com/regras-de-ouro-na-formulacao-de-objetivos/

Cross, R., Siegler, J., Marshall, P., & Lovell, R. (2019). Scheduling of training and recovery during the in-season weekly micro-cycle: Insights from team sport practitioners. European Journal of Sport Science, 19(10), 1287-1296. https://doi.org/10.1080/17461391.2019.1595740

Garganta, J. (2009). Trends of tactical performance analysis in team sports: Bridging the gap between research, training and competition. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 9(1), 81-81-89. https://doi.org/10.5628/rpcd.09.01.81

Gleason, B. H. (2022). Periodization and programming for team sports: A supplement. National Strength and Conditioning Association.

Gouveia, V. (2023). Treino em futebol: O exercício de treino como meio de comunicar uma forma de jogar (1st ed.). Lidel.

Lacome, M., Simpson, B., Cholley, Y., Lambert, P., & Buchheit, M. (2017). Small-sided games in elite soccer: Does one size fit all? International Journal of Sports Physiology and Performance, 13, 1-24. https://doi.org/10.1123/ijspp.2017-0214

Lança, R. (2024). O lado invisível das organizações vencedoras. Escolar Editora.

Lyakh, V., Mikolajec, K., Bujas, P., Witkowski, Z., Zajac, T., Litkowycz, R., & Banys, D. (2016). Periodization in team sport games: A review of current knowledge and modern trends in competitive sports. Journal of Human Kinetics, 54(1), 173-180. https://doi.org/10.1515/hukin-2016-0053

Mujika, I., Halson, S., Burke, L. M., Balagué, G., & Farrow, D. (2018). An integrated, multifactorial approach to periodization for optimal performance in individual and team sports. International Journal of Sports Physiology and Performance, 13(5), 538-561. https://doi.org/10.1123/ijspp.2018-0093

Santos, F., & Pinheiro, V. (2020). Futebol: Do treino à competição. Planeamento e operacionalização (1st ed.). Prime Books.

Silva, E., & Drews, R. (2023). O papel do feedback extrínseco no futebol: uma revisão integrativa com enfoque nos jogadores. Retos, 50, 769-779. https://doi.org/10.47197/retos.v50.96839

Tarragó, J. R., Massafret-Marimón, M., Seirullo, F., & Cos, F. (2019). Training in team sports: Structured training in the FCB. Apunts. Educacion Fisica y Deportes(137), 103-114. https://doi.org/10.5672/APUNTS.2014-0983.ES.(2019/3).137.08

Wright, C., Atkins, S., Jones, B., & Todd, J. (2013). The role of performance analysts within the coaching process: Performance Analysts Survey 'The role of performance analysts in elite football club settings'. International Journal of Performance Analysis in Sport, 13(1), 240-261. https://doi.org/10.1080/24748668.2013.11868645

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