Análise Técnico-Tática: Organização Ofensiva do Leeds United

Na presente publicação, proceder-se-á à realização de uma análise técnico-tática da organização ofensiva do Leeds United no jogo em Anfield, frente ao Liverpool, na temporada 2020/2021. Esta partida correspondeu à 1.ª jornada da época desportiva, colocando frente a frente os campeões em título da Premier League e do Championship, e terminou com uma vitória por 4-3 para os ‘reds’.

O objetivo da análise foi explorar a estrutura, dinâmicas e princípios funcionais do Leeds United com bola, num jogo em que a equipa demonstrou identidade ofensiva, coragem posicional e excelente coordenação coletiva, mesmo diante da pressão intensa do Liverpool.

No que concerne à organização estrutural, o Leeds estabeleceu-se num 1-4-1-4-1, que, numa fase mais adiantada, se desdobrava num 1-3-3-1-3 (Figura 1). A equipa orientada por Marcelo Bielsa evidenciou a intenção de chegar à baliza adversária através de passes verticais curtos, conduções orientadas para a frente e passes verticais para explorar a profundidade. O treinador argentino procurou garantir amplitude ofensiva, com Hélder Costa e Harrison sempre bem abertos, colados à linha lateral, e uma ocupação racional dos três corredores, com apoios interiores assegurados. Klich e Dallas alternavam entre apoio e rutura, enquanto Pablo Hernández flutuava livremente, oferecendo linhas de passe entrelinhas e promovendo mobilidade funcional.

Figura 1: Estruturas ofensivas utilizadas pelo Leeds United frente ao Liverpool

Para efeitos de sistematização, a presente análise será dividida em três momentos: 1.ª fase de construção (ou construção baixa), 2.ª fase de construção (ou construção média) e criação + finalização.


Na 1.ª fase de construção, os ‘Peacocks’ optaram por uma saída a quatro, com os centrais Koch e Struijk e os laterais Ayling e Dallas. Kalvin Phillips posicionava-se nas costas da primeira linha de pressão do Liverpool, composta por Salah, Firmino e Mané, assumindo o papel de organizador. A partir dessa zona, executava passes verticais curtos e longos, com destaque para as variações do centro de jogo. O guarda-redes, Meslier, participava ativamente na circulação com os pés, atraindo a pressão.

O Leeds procurava criar superioridade posicional antes de progredir, apostando depois em bolas longas para a rutura do ponta-de-lança ou dos extremos. Face à pressão alta do Liverpool em 4-3-3, com os extremos atentos aos centrais e Firmino a bloquear a linha de passe para Phillips, o espaço surgia nos laterais. Assim, Meslier identificou e explorou várias vezes essa solução com passes longos, obrigando o médio do lado da bola a saltar na pressão, o que deixava o corredor central desprotegido. Klich e Pablo Hernández poderiam então beneficiar desse espaço para receber nas costas dos médios.



Na 2.ª fase de construção, o Leeds procurava sair em 3+1, com os laterais assimétricos e o médio defensivo posicionado atrás da primeira linha de pressão. Ayling juntava-se aos centrais, enquanto Dallas oferecia largura e profundidade à esquerda. Dallas podia ainda movimentar-se do corredor lateral esquerdo para zonas interiores, formando um triângulo com Klich e Harrison. Para além disso, a equipa de Yorkshire alternava ocasionalmente para uma construção em 4+1, com os laterais simétricos e o médio defensivo nas costas dos avançados do Liverpool.

Phillips tinha como funções receber, rodar e ligar, ou arrastar marcações para libertar espaço e permitir a variação do centro de jogo para o corredor oposto. Hélder Costa mantinha-se largo à direita, forçando o 1x1 com Robertson. Pablo Hernández flutuava nas costas de Wijnaldum e Keita, procurando o espaço entrelinhas (liberdade posicional) e, na construção a três, podia compensar o posicionamento interior de Ayling, lateralizando à direita. O Leeds criava constantemente triangulações interiores, com o objetivo de ligar no 3.º homem, principalmente com Klich e Pablo Hernández.



Na fase de criação e finalização, o Leeds apostava em entradas rápidas no último terço, com uma circulação objetiva e poucos toques, tirando partido dos movimentos verticais de Klich e dos apoios frontais e ruturas de Bamford. A equipa explorava ainda as combinações exteriores entre Dallas, Hernández e Harrison, assim como os lançamentos na profundidade, promovidos por Phillips, para atacar as costas da linha defensiva adversária.

Segundo dados da Premier League, o Leeds terminou o jogo com mais posse de bola (51,2%) e evidenciou uma maior penetração qualitativa, entrando com critério na área adversária. Em vários momentos, os ‘Peacocks’ pareciam jogar com dois médios ofensivos a atacar a profundidade: Klich e Hernández. Procuravam também chegar em largura para efetuar cruzamentos.

Em suma, mesmo perante a diferença de argumentos, Marcelo Bielsa preparou o jogo com o intuito de manter a identidade da equipa, não abdicando da posse de bola, independentemente do poderio adversário. Procurou explorar as fragilidades da pressão do Liverpool, imprimindo objetividade e verticalidade, o que resultou em três golos marcados no estádio do campeão inglês, na jornada de regresso ao escalão principal do futebol inglês. Importa referir que, nessa época, apenas uma equipa além do Leeds conseguiu marcar três ou mais golos em Anfield: o campeão de 2020/2021, Manchester City.

Comentários

Mensagens populares